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domingo, 28 de março de 2010

bic ho #tal

um bicho que era
não era
já era
um bicho que berra
beirando o berro
pés limpos de barro
catando cavaco
cavando buraco
cheirando suvaco
assoviando aquelas
músicas de animações
antigas...
mais que isso
aquilo outro
(a luz cansada
a mão no bolso)
atrás do oco
sugando o poço
até o caroço
o bicho frouxo
querendo segregar
o lixo
querendo se afirmar
um novo bicho
que já não era
arrebenta
a pauta do estomâgo
latindo aos escarros
aos terrenos baldios
que nunca tomavam sol...
até de repente
pedinte de dor
o bicho atravessa
rompante
e pedante: o bicho
se eleva arrastado
a carne dobrando
calando opaca
cobrindo as penas
pequenas
com corpo
sedento cedendo às cores
fingindo de morto
e chupando manga
e rompe
e vence
e vaia
as veias das estranhas
rompidas
p'ra ainda praguejando
e implorando
se ajoelhar
no outro mundo.

segunda-feira, 1 de março de 2010

bic ho #6

mais uma tragédia
na cabeça do bicho
de cabeça pra baixo
na árvore do córrego
no final do verão
de dois mil e dez,
suspenso e frágil em sua carcacinha
imóvel se não chegar e ventar-se
enquanto outro bicho outro
quase que menos morto
se guardava noutro tipo de tragédia
sem se enterrar se desgraçando
crescendo mesmo e devorando seus mesmos
pedaços
enquanto corroendo por dentro das vísceras
do tempo a se engolir por si
atravessa minha carne
em perguntas sóbrias e só
eu indo sentindo tudo ainda e torto
sem gemer ou gritar
querendo não tentar partir
tentando não querer ficar.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

bic ho #5

puta que pariu.
boceta que chupou ou senão o coração que se lhe partiu
um tipo do sujeito que não dormesticado em sua cama
ou foi o gemido que lhe zuniu?
na cozinha , a gente trepa apoiado na pia
e toda faca que corta tem dois gumes
amor de fica é o que pica

diz o bom ditado

mais vale um na mão

que dois trepando

mais que um fato, um ato

um ditongo, outro de tanga

um de trouxa, outro de taxo

quem não mama em cima, certamente não mamará embaixo

pra mamar tem que chorar

pra chorar tem que doer

pra doer tem que acabar

pra acabar tem que bater

pra bater tem que olhar

(o olho é uma chaga, o olho em sua chaga)

toma vitamina pra sonhar com a menina

limpa geladeira pra guardar os trem da feira

passa hidrante pra virar um bom pedante

para de ter medo

e meter medo

(pra meter tem que molhar

pra molhar tem que lamber

pra lamber tem que suar)

não sei se vale uma gota

gota vã divã afã

gota pérfida

de amor amor amor amor amor amor

gota viva

esgota

esgoto

mais cospe que engole

esgotada

mais engasga que degusta

as coisas mais belas e porém as mais putas

das pautas e linhas escritas pelo deus que só enxerga

torto por linhas certas

são tortas as linhas

são tortas de galinha

servidas na mesa da cozinha onde a gente também usava trepar de noite

são certas as linhas

certas são as galinhas

servidas na mesa da cozinha onde a gente também trepava o uso de noite

mas sem cortes (nem reis nem rainhas)

mas com cortes

de dois gumes decepando vaga lumes

vagando rasgando vencendo

o fundo escuro do mundo com a bunda

e que as luzes do meu domicilio, não me deixam ver

e que as luzes do meu domicílio não me deixam meter

ou era só a minha sombra, ou era minha sombra só

ou era o nada

minhas mãos segurando o nada

ou o nada segurando minhas mãos

transgredindo mais que chão pra me estender

rasgando mais que céu pra deixar de entender

e aqui vou eu, abaixo sem pára-quedas

pra cima sem propulsão, com gravidade infinita

caindo sem vontade, com a cara mais bonita.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

bic ho #4

expostas nessas veias feverinas
arde a ferida inerte rasgando
a pele de um calango
de outras secas -
malogrando em direção
ao nada
passeia como se soubesse
de cada trinca do peito,
e abandona de si
aqueles lenços brancos
das partidas...
não disfarça o suor que a dor
absorve,
nem enxuga as passadas que esquece
na pele da terra...
anda torto
bravo
descompassado e turvo,
caminha bruno,
mais uma vez,
dá a cara a tapa
coração a faca...
tem medo,
mas sem outro meio
de escapar,
não tem saída.
sofrer é seu lugar de bicho
no mundo.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

bic ho #3

em algum lugar do mundo
jaz um corpo moribundo
bicho morto, bicho imundo
bicho aberto,
em algum lugar deserto
peito feto,
filho feio de janeiro
e dezembro.
em algum lugar por perto...
ébrio
sóbrio
vivo
rompido em seu inteiro
rasga outros gestos
cheira outros meios
em algum lugar tão fundo...
bicho solto,
fala torto
come medos...
come tudo,
animal ruminante
deselegante
salivante,
fadado à morte
rompante...
bicho malogrado...
bicho invisível...
bicho nada
se arrasta, romeiro
fadiga cruenta
sem pressa
fareja feito cão sarnento
a vida arrogante
apagado, esquecido, extinto
aclamado pelo silêncio
o bicho -
se curva abatido
e demente.
março já vem, animalzinho.
e ele peregrina,
seco.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

bic ho #2

se faz de oca
essa coisa
que mastigo
quase que
um castigo vazio...
quase que
um motivo transparente.
há qualquer esperança
(urgente) sendo sincera
nessa carne
covarde

disfarço maltratando o tempo.

não quero ver crescer em mim
algum amargo
nem me vestir de casulos brandos
e revoltos por condescendência
ou me entregar apático à apatia

se mesclo tudo
nesse pedaço de pele
não quero ser pequeno!
não posso
ser obtuso!

me apeguei enfim
a uma impressão substanciosa
e nata
que engole tudo
envolta de atração e nojo

opaco, estou cansado,
desboto qualquer galgar
que me faria colorir
o tédio de viver e nada

e de onde concluir
algum desejo?
se despejei n'alguma coisa
feita de folha ou de gente?
e rasguei abismos previstos
com o peito despido de medo?
com um absurdo ladrado?

arrasto essa sede de mundo
(tempo, estou cansado)
quase no escuro,
há uma senóide de palavras
que miam
e eu, bicho qualquer
adivinhando portantos capciosos - em partes.

sou todas coisicas viris...
de coração e medo.

e de repente tudo não me basta.

sábado, 5 de dezembro de 2009

bic ho #1

quero ser triste
de novo
dormir feito morto
andar feito torto
comer feito porco
cair de repente
pagar de demente
fugir de motivos
plausíveis
rasgar cortesias
vagar prostrado
pelas salivas
das noites transgridas
não cumprir tarefas
aliviado
pelo pesar que corta
e não vence o gosto
(de debaixo da língua)
de me sentir doído,
e vivo.