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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

já fiquei por ali mesmo. acho até que eu fazia cara de quem não ia sair.
pensei em acender um cigarro pra estabelecer essa idéia - de ficar mesmo.
era quase incomum que não tivesse nada pra tirar às pressas antes de deitar.
a cama tava vazia, acho que eu tava vazia.
tinha feito aniversário, de novo, afinal.
mesmo sem ter a sensação cortante de estar envelhecendo, bateu uma tristeza mesquinha, dessas que têm cor de desmaio, sabe?
por fim resolvi pegar o cigarro. não era nem meu.
tava com essa sensação meio que engasgada - que nada era meu ultimamente.
e ainda era o último. agora que já o tenho em mãos, sei que vai fazer falta mais tarde.
cigarro é coisa que quando acaba, deixa a gente assim, querendo mais do que quereria se tivesse. desconfio que quase tudo...
tomei remédio. pra curar o enjôo de mundo que eu tava sentindo. rezei baixinho pra dar sono.
lembrei de rezar pra minha vózinha, acho que ela tá com medo criado de morrer.
coisas essas que fazem tudo parecer pequeno. tipo coração partido, que nem o meu.
acho que eu tenho medo de morrer não, meu lugar no mundo é diminuto. o da vózinha é grande.
ela sabe mais que eu.
pelo menos de português, porque ela dava aula.
até ganhei, porque eu pedi pra não roubar, um dicionário desses grandões de capa dura azul, escrito aurélio de letras douradas e garrafais. mais de duas mil páginas de palavras.
nessas horas que a gente vê que entende nada.
nem a dor da vózinha, nem a minha... que é diferente.
aí o cigarro tinha acabado.
comecei a pensar outras coisas, até suspirei sem querer.
fiquei imaginando que eu era um barquinho. inventei até que eu era bicho, mesmo que isso eu fosse.
queria ser nada. coisa sem jeito, essa. sempre a gente é alguma coisa, mesmo que não se saiba precisamente, mesmo que seja coisa nenhuma.
até me incomoda um pouco essa idéia de vazio que as pessoas têm do vazio em si.
nunca acreditei que não ser não fosse. não ter não tivesse, etc...
continuava. porque tinha também.
por isso punha a idéia de barquinho em algum lugar bonito pra deixar correr.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

sair pra comprar cigarros era coisa de dez minutos. fazia cheiro de centro em tudo, e eu tentando concluir entre um passo e outro se era vazio ou tristeza cá dentro.
marchei de volta pra casa assim, meio engasgado, ainda sem adivinhar ao certo... não chorei por falta de coragem, mesmo que você nao estivesse p'ra assistir, bateu uma vergonha também.
não era nada assim muito surpreendente que fosse doente ou fúnebre querer consertar o que a gente despedaçou nesse tempo tão curtinho...
e mais ainda a cabisbaixice de te querer mesmo com todos aqueles silêncios, porque eu só queria. (isso é que dava vergonha).
mas também tinha que eu não conseguia mais.
chorar, digo.
e mesmo a certeza dura de que de repente eu era mais desgosto do que cabia a pele, dava vontade de ter um choro também.
eu era muito pequeno pra isso.
era coisa maior pelo menos, tratar-se de mim de vez em quando, quase um atestado de que eu ainda tentava, mesmo que sem querer.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

para o outro

entortei meu coração de vontade de saber como ele ficava assim.
se mais bonito ou colorido, ou só penoso mesmo.
sabia me doer, toda a hora, inventar que cor teria se a gente se desse em nós. que cor teria a meia luz de quando a gente fizesse amor se dizendo baixinho.
sabendo que ainda se você quisesse se adivinhar um padre, eu levaria flores e maçãs, pra me confessar um pouco também em mentiras, só pra ver se te cresciam ciúmes...
há de haver qualquer coisa de incomensurável em querer enternecer o mundo.
não sei ainda. acho mesmo irrelevante - disfarço pra não sentir o peso de seguir sendo aquela de traquéia, vazia, sabe? aquele aperto de quem não está faz tempo... é que de repente eu carrego mais do que um feto. vejo, por frestas que gritam, todo o medo vagando arredio por algum trecho escuro entre meu estômago e a minha alma. criando manchas. pegando apego mesmo. traçando pontes entre o que nem deveria ser uma junção, de um jeito desastrado... até mesclando cores feias.
esconjurei! praguejei, malogrei. aquela vista opaca de quem vê o nada com as mandíbulas impedidas. faz-se indevido cílio sequer e o corpo desaba. feito marionete sem dono. desmonta dengoso. deixo os dentes cerrados por prudência.
segura, vida. mais que forte.
fé que o santo deve mesmo ter algum poder de cuidar desses bichos: eu. e a possibilidade.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

mundo
esse comboio que invento
quase surdo
quase mudo
quase tenro
leva tudo que há de obsceno
tudo que há de trêmulo
deixa o que há em mim
e os raimundos e pedros
e doras
continuam perdidos
nas horas... do fim...
sigo rasgando palavras
colando, fazendo amarras
dos retalhos absortos
desse peito
que chamo meu,
ninguém vê,
ninguém ve,
minto,
como o mundo que não invento
mente
e se repete ao parir essas nuvens
sem cores da minha sacada
no centro da cidade coberta
de luzes de dezembro
e sombras de natal.
mais de meia noite
do dia vinte e quatro
de dezembro
cumpre seu destino
estremado
esse anel de zircone
validade eterna
(vendido por sandra, não bruna):
ganha meu dedo anelar.
não o polegar,
não o médio.
nem o mínimo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

ai, tempo
faz de mim uma mulher de carne
e têmporas
de memórias palpitantes

faz de mim todas as dores
inventadas
desbotadas
que não cortam
nem arranham as entranhas
(e que não passam...)

faz:
velha minha pele dilatada
rugas em veias indolentes
e porquês vencidos com cantigas
de esquecer.

tempo, ai!
já deixei aberto o peito
pra você tecer a nostalgia...

inventa em mim um sentimento
de pedra galgada
faz de mim cor delicada

e ai, tempo
faz de mim
quase nada...

há em mim um lamento
urgindo ferrenho,
dizendo ignóbil...

quero ser um demente:
que basta, tempo!

uma pedra que fala
impune
e não sente
por consequência.